Professores cassados: Sinval Medina

Sinval Medina: depoimento sobre a ditadura na ECA

Começo recordando o significado da ECA e, particularmente, do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE) no contexto da USP em 1971, ano em que minha companheira Cremilda Medina e eu, formados em Comunicação Social (Jornalismo) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, emigramos para São Paulo com o objetivo de cursar o mestrado da ECA/USP, que seria implantado no ano seguinte. A convite do professor José Marques de Melo, ingressamos na ECA como auxiliares de ensino. O país vivia uma das fases mais violentas da ditadura militar. A atmosfera repressiva dominava a universidade. Porém na ECA e, particularmente no CJE, respirávamos um clima de liberdade que beirava a ousadia. Integrávamos uma área de conhecimento muito recente, sem tradição científica, mal compreendida e mesmo desdenhada pelo conservadorismo então predominante no meio acadêmico. Além disso, éramos jovens da geração de Maio/68, nossas roupas, cabelos e atitudes confrontavam os padrões tradicionais. Aos olhos dos hierarcas uspianos, parecíamos mais alunos do que “mestres”.

Ou seja, o Departamento de Jornalismo era um ponto fora da curva numa instituição dirigida por reacionários. E aqui rendo minha homenagem ao meu querido amigo e ex-chefe José Marques de Melo, responsável pela criação e sustentação desse núcleo de resistência à ditadura. Sob o comando de José Marques, o CJE se tornou uma usina de projetos e um centro de pesquisa e ensino com destaque nacional e internacional. Em sua gestão surgiram a Agência Universitária de Notícias, que se tornaria órgão laboratório-modelo para o ensino do Jornalismo no país; a Editoria de Textos, que publicou dezenas de títulos fundamentais para a bibliografia em Comunicação Social; estruturou-se a Gráfica da ECA como órgão laboratório; foram realizadas Semanas de Estudos de Jornalismo, que em sua quarta edição, em 1972, foi o maior evento do gênero até então realizado no país, com a presença de especialistas internacionais, professores e estudantes de todo o Brasil.

Sinval e Cremilda Medina
Sinval e Cremilda Medina

Logo, porém, o brilho do CJE começaria a incomodar a cúpula da USP e a própria ditadura. Trabalhávamos com informação, material explosivo para um sistema político que adotava a censura como forma de esconder seus crimes. Começou então a destruição sistemática do departamento. Professores passaram a ser afastados, em processos de “cassação branca”, ou seja, sem o ritual dos atos institucionais. O método permitia a demissão sumária, sem qualquer direito trabalhista. O primeiro a cair foi o professor Freitas Nobre, bravo líder do MDB na Câmara Federal; seguiu-se o professor Thomaz Farkas; depois, José Marques de Melo; finalmente, Jair Borin, que foi preso nas dependências da ECA, numa gritante violação da inviolabilidade do território universitário.

A virada se deu com a nomeação de Manuel Nunes Dias para a direção da escola, em outubro de 1972. Não o chamarei de professor, porque esse senhor se comportou como um agente policial-militar. Não tenho provas para afirmar, mas tudo leva a crer que Nunes Dias mandou “levantar a ficha” dos membros do corpo docente, com a intenção de promover uma limpeza ideológica na escola. Se assim procedeu, não foi por conta própria, mas a serviço do regime. Ele, aliás, se jactava de ter excelentes relações com os “órgãos de segurança” (sistema repressivo da ditadura). Disso dou meu testemunho por tê-lo ouvido, mais de uma vez, gabar-se de seus contatos para intimidar professores e alunos. Assim, não é de admirar que tenha tolerado, ou mesmo tenha sido conivente, com a invasão da escola pelos agentes policiais que tiraram Jair Borin da ECA para o cárcere.

Após o afastamento dos professores mencionados, chegou a minha vez. Eu ocupava o cargo de vice-coordenador do CJE. Fui demitido após ser reprovado no exame de qualificação para o mestrado, por uma banca facciosa, integrada por Modesto Farina, Helda Barracco e Teobaldo Andrade. Submeti-me ao julgamento deles sem imaginar que se curvariam às pressões de Nunes Dias. O processo de homologação do resultado do exame se arrastou do final de dezembro de 1974 a março de 1975, quando a Comissão de Pós-Graduação, após muita discussão interna, entendeu como válida a decisão da banca. Mas não houve unanimidade entre os membros da comissão. Além da representante discente, Jeanne Marie Interlandi, os professores Eduardo Peñuela e Frederic Litto votaram pela anulação do resultado e realização de um novo exame. Deixo aqui meu reconhecimento pela coragem e independência por eles demonstrada.

Sinval Medina
Sinval Medina, hoje com 78 anos, dedica-se exclusivamente à literatura

Três colegas se demitiram em sinal protesto: Walter Sampaio, Paulo Roberto Leandro e Cremilda Medina. O CJE ficava, assim, praticamente sem condições de funcionamento. O caso fora acompanhado pelos alunos desde o início. Quando chegou ao desfecho, os estudantes do CJE deixaram de comparecer às aulas, permanecendo mobilizados na escola. A paralisação se espalhou pela ECA. Os alunos entendiam que Manuel Nunes Dias, autor de tantas arbitrariedades, não podia continuar na direção da ECA. Como um rastilho de pólvora, a greve atingiu outras unidades da USP.

Com a carreira acadêmica interrompida e ameaçado de prisão, retirei-me de cena e tratei de buscar emprego. Com o auxílio de amigos, em menos de duas semanas estava trabalhando na Rádio Difusora de São Paulo, na Assessoria de Imprensa da Prefeitura, de onde saí em um mês para a Editora Abril. Assim, voltei ao jornalismo, à editoração e à literatura. Mas o afastamento da ECA continuava atravessado na minha garganta. A reprovação no exame de qualificação era uma pedra no meu caminho, ainda que, a essa altura, já tivesse enveredado pela literatura e publicado três romances (Liberdade Condicional; Cara, Coroa, Coragem; e Memorial de Santa Cruz), com boa repercussão de público e crítica. A carreira acadêmica ficara no passado.

Com a queda da ditadura, mais uma vez pela mão do professor José Marques de Melo (que infelizmente já nos deixou), tive a chance de remover a “pedra do caminho”. No dia 5 de novembro de 1986 fui reintegrado à USP, com base na Emenda Constitucional 26, de 27/11/1985, que trata da anistia para perseguidos políticos. Coube a José Marques o encaminhamento da minha pretensão, sancionada pelo então reitor, professor José Goldenberg.

A essa altura, minha vida profissional me afastara por completo da universidade. Assim, trabalhei durante um semestre no CJE e em junho de 1987 pedi demissão, deixando a Universidade de São Paulo pela porta da frente. Não esqueço, porém, a importância que a ECA teve na minha formação. Fui aluno de mestres como Egon Shaden, Paulo Emílio Sales Gomes, Eduardo Peñuela, Décio de Almeida Prado, Sábato Magaldi, Virgílio Noya Pinto e do próprio José Marques de Melo. Além disso, no convívio acadêmico, fiz amizades que perduram até hoje.

Lembro com saudade desse tempo, mas também com preocupação. É impossível esquecer o que a minha geração sofreu nos anos de chumbo. Manter viva a memória do medo, da frustração e das humilhações por que passamos é a melhor maneira de evitar que a ditadura venha, um dia, a se repetir em nosso país.

Fotos:

Arquivo pessoal Sinval Medina

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There is 1 comment
  1. pauta_agora_eca

    “Agradeço a publicação do material. Ficou ótimo. Aproveito para destacar a importância da iniciativa, lançando luzes sobre um passado que podemos superar, mas nunca esquecer. Ainda mais quando o fantasma do obscurantismo e do arbítrio volta a nos assombrar. Parabéns pela iniciativa. Forte e solidário abraço”, escreveu o professor Sinval Medina para o ÁgoraECA.

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